José Lino Souza Barros

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Granfa

09/02/2019 às 01:57
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De Nelason Rodrigues

Foi uma mudança que deu na vista. Muito alegre, brincalhão e, até moleque, tornou-se grave, fechado, fúnebre. Os amigos estranharam: “Que cara é essa? Estás doente?” Respondia, soturno:
— Não há nada. Vou muito bem, obrigado.
Ia mal, porém, a julgar pelos seus novos ares e pelos suspiros, em profundidade, que extraía do próprio peito. Até que Eugênio, que era seu amigo mais íntimo, uma espécie de irmão, veio questioná-lo com a autoridade dos amigos fiéis. A princípio, o Freitas relutou: “Não há nada. Juro que não há nada!” Mas o outro insistiu: “Tem um segredo, um mistério na tua vida. Ou não confia em mim?!” Freitas levanta-se, vai até a janela e volta. Senta-se novamente e resolve abrir o coração. Põe a mão no joelho do Eugênio e baixa a voz:
— Adivinhaste. Tenho um mistério na minha vida. Aliás, um drama. Um drama em 25 atos e 32 apoteoses. É o seguinte: estou amando uma mulher casada!
— Oba!
E o Freitas:
— Pois é. Eu gosto dela, ela gosta de mim. Te juro o seguinte: é a minha primeira e última paixão!
Eugênio faz a pergunta: “Boa?” O outro explode:
— Se é “boa”? Um monumento, compreendeu? Dessas mulheres que derretem edifícios. Quando eu penso ou falo nela, começo a tremer. Olha só como eu estou tremendo, olha!
Estendeu a mão, que, efetivamente, tremia. Eugênio, impressionado, começa a raciocinar, em voz alta: “Mas se você a ama, se ela te retribui e se é ‘boa’ pra caramba, não vejo drama.” Freitas protesta:
— Há drama, sim — e repetia: Há! Imagina você que a pequena é “granfina”, e eu, um pé-rapado. A dura realidade é a seguinte: eu não a mereço, está muito acima de mim!

O pobre e a rica

Ele próprio, com seus 29 anos de vida, não sabia explicar aquilo. Era um rapaz modesto, cuja experiência limitava-se a cinco ou seis namoros suburbanos. Sua penúltima namorada tinha, na frente, um escandaloso dente de ouro. Pois bem. Um dia, o Freitas dá, de cara, no futebol, com um amigo de infância, colega de colégio e, por sinal, riquíssimo. Coincidiu que torcessem pelo mesmo time e a paixão clubística os reaproximou. O outro, filhinho de papai, levou-o, de automóvel, até a porta de casa. Fez, na despedida, o convite formal:
— Olha, aqui. Amanhã você janta lá em casa, nem que chova canivete. Toma nota do endereço. Ou eu venho aqui te buscar de carro, quer?

Quis. A amizade com um milionário deslumbrou o Freitas. No dia seguinte, o outro reaparece, na hora marcada, com um carro espetacular. Várias coisas esmagaram o Freitas neste primeiro jantar. Antes de mais nada, o ambiente, de um luxo deprimente; depois, os talheres de prata autêntica; e, por último, a beleza da dona da casa e mulher do amigo. Acresce que foram servidos por um garçom engravatado. Tudo isso ofuscava um rapaz sem pretensões, que residia na periferia. Freitas jantou, lá, outras vezes, porque o dono da casa era de um entusiasmo irresistível. No fim de quinze dias, faz um exame de consciência e conclui pelo seguinte: estava apaixonado. Apaixonado, até a raiz dos cabelos, pela esposa do amigo. E uma circunstância agravou, o caso: a retribuição por parte dela. 

Amava e era amado. Se fosse um romance normal, teria agido normalmente, também. Mas, naquela casa tudo o intimidava, inclusive o formalíssimo garçom de gravata-borboleta. No seu quarto, em casa, Freitas perguntava, de si para si: “Pra que garçom?” Por sua culpa ou por culpa de suas inibições, aquele amor não andava. Até que a garota, impaciente, soprara, ao seu ouvido:
— Arranja um lugar! Arranja um lugar!

O problema

O lugar! Eis o problema cruciante. Desabafando com o Eugênio, Freitas explicava:
— Se fosse uma qualquer, não teria importância. Mas essa, não! Essa é muito “granfina”! Eu não posso, evidentemente, levá-la pra qualquer lugar. Mas onde? Não conheço ninguém. É uma calamidade!
Eugênio pergunta:
— Ela não é mulher?
— É.
— E você não é homem?
— Sou.
O outro simplifica a questão:
— Sendo ela mulher e você homem, está tudo resolvido. O resto não interessa. Qualquer lugar é lugar. Ou você tem algum complexo?
Tinha. Em pé, andando de um lado para outro, Freitas geme abundantemente:
“Não penso assim. Das duas, uma: ou arranjo um ambiente em condições ou então prefiro desistir, é melhor desistir.” Eugênio pergunta:
— Quer o meu?
— O seu o quê?
E o amigo:
— O meu apartamento. Eu te empresto. Quer?
Esbugalhou os olhos:
— O seu, não. Obrigado, mas não quero.
Eugênio, porém, enfia-lhe a chave na mão: “Deixa de ser burro. Sabe em quanto ficou a mobília do meu apartamento? Uma grana! Pode ir: alinhadíssimo.” 
Sozinho, Freitas sente que a chave queima na sua mão.

A fulana

Quando cai em si, corre para o telefone e liga para o seu amor: “Acaba de acontecer uma coisa incrível, meu anjo! Incrível!” Toma respiração e continua:
— Saiu daqui, agorinha mesmo, o teu marido! O Eugênio, sim! Eu contei-lhe o nosso negócio.
— Você?!
— Escondendo os nomes, claro. E o pior você não sabe. O pior é que como estou em dificuldades para arranjar um lugar decente, seu marido ofereceu o próprio apartamento! Vê se pode! Contado não se acredita!

Do outro lado da linha, a garota perdia o fôlego de tanto rir. Freitas não entendia esse riso incontrolável: “Mas o que é que há? Rindo por quê? Não vejo motivo!” Enfim, a garota pôde falar: “E você aceitou? Ah, eu gosto de teu cinismo.”
Ele protesta:
— Não. Espera lá. Não aceitei coisa nenhuma. Ele é que pôs a chave na minha mão. Mas eu não vou usar isso. De jeito nenhum.
— Por quê? 
Foi veemente, no telefone: “Que ideia você faz de mim? Assim também não, que diabo!” 
Ela, rápida e decisiva, o interrompe: “Ora, não amola! Vai, sim, senhor!” Dão uma pausa. Freitas arrisca a pergunta: “Mas você acha direito?” A garota irritou-se.
— Direitíssimo. Ele não me trai lá? Eu pago na mesma moeda e no mesmo lugar.
Combinaram o encontro, para a tarde seguinte. Ele ditou, pelo telefone, o endereço.

Reação

Foi pontualíssima. Entrou no apartamento do marido e olhava para tudo, com uma divertida curiosidade. Virou-se para o Freitas que, calado, esperava. Deixou a bolsa em cima de uma mesinha e perguntava: “Quer dizer que é aqui?”

Suspira, deliciada; e quer beijá-lo. Freitas, porém, a empurra, brutalmente. A moça faz espanto. “Que é isso?” Então acontece o seguinte: o rapaz corre, abre a porta; trinca os dentes:
— Rua, ouviu? Rua! Tenho nojo de ti, só nojo! — e repetia, numa alucinação: — Cínica! Cínica!
Ela passou por ele sem olhá-lo, de cabeça baixa. Fugiu, apavorada, pelo corredor.
Dois ou três dias depois, o Freitas era visto, de braço, com a antiga namorada do dente de ouro, sua vizinha de periferia.

SONOPLASTIA: RONALD ARAÚJO 

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