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Radicalismo político no Brasil supera média global, mostra pesquisa feita em 27 países 

Por Agência Brasil, 15/04/2019 às 10:06

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A polarização política no Brasil atingiu um nível elevado de intolerância que supera a média internacional de 27 países observados em uma pesquisa do Instituto Ipsos. Tema perceptível no cotidiano do brasileiro nos últimos anos, o radicalismo que envolve as discussões político-partidárias foi o aspecto medido na pesquisa. O levantamento mostrou que os entrevistados no Brasil estão menos propensos a aceitar as diferenças. Segundo o instituto, 32% dos brasileiros acreditam que não vale a pena tentar conversar com pessoas que tenham visões políticas diferentes das suas. 

O índice nacional nesta questão é maior do que quase todos os países pesquisados - que ficou, na média, em 24% -, atrás apenas de Índia (35%) e África do Sul (33%). Na prática, o nível de intolerância nas discussões políticas afeta as diversas relações pessoais, sejam as familiares, as profissionais e as interações nas redes sociais.

A microempresária Patrícia Jimenes, de 42 anos, não vê a mãe há cerca de um ano, resultado de um rompimento por divergências políticas, associadas a “valores e princípios”. Nas eleições do ano passado, elas ficaram quase três meses sem se falar. Patrícia, que se identifica com a esquerda, bloqueou a mãe nas redes sociais por um tempo - tudo para não receber mensagens de política, explicou. “Em abril do ano passado eu explodi. Depois de um comentário no jantar de família, eu peguei minhas coisas e disse que não voltaria mais lá.”

O estudante universitário Erick Ferreira, 27, também se sentiu obrigado a cortar relações. Identificado com a centro-direita, ele diz já ter sido alvo de perseguição. “Colaram cartazes nos banheiros femininos da universidade com nomes de homens com quem as mulheres não deveriam se relacionar por questão ideológica. Meu nome estava lá por eu ser de centro-direita. Isso fez muita gente se afastar de mim. Já discuti demais. Agora, estou cansado.”

A pesquisa do Ipsos foi realizada com 19,7 mil entrevistados entre 16 e 64 anos nos países em que o instituto atua. Os cerca de mil brasileiros são majoritariamente pessoas de centros urbanos, com salário e nível educacional superior à média nacional.

Em outra pergunta feita aos participantes, 40% dos brasileiros disseram que se sentem mais confortáveis junto de pessoas que têm pensamentos similares. O índice é de 42% levando-se em conta os 27 países. A visão crítica de brasileiros a respeito de quem pensa diferente também foi ligeiramente acima da média geral quando o assunto foi o futuro do país e as razões de suas escolhas. Para 31%, aqueles com visão política diferente das suas não ligam de verdade para o futuro do Brasil. A média geral é 29%. 39% dos brasileiros concordaram com a frase “quem tem visão política diferente de mim foi enganado” - dois pontos porcentuais a mais que a média.

Marcos Calliari, CEO da Ipsos Brasil, avalia que o principal efeito observado no País está relacionado ao questionamento no qual 39% dos entrevistados brasileiros acreditam que pessoas não mudarão de opinião mesmo com evidências contrárias apresentadas. Além disso, 34% concordam com a frase “quem tem visão política diferente de mim não liga para pessoas como eu”. “A falta de transformar opiniões distintas em diálogo construtivo é o que mais nos preocupa. Temos evidências que os entrevistados não veem ganho no diálogo.”

Os brasileiros também se destacaram quando questionados se o País corre mais ou menos perigo com pessoas com opiniões políticas diferentes do que há 20 anos: 44% dos brasileiros acredita que há mais perigo atualmente. A média global, também elevada, é de 41%. Suécia e Estados Unidos lideram, com 57% cada.

Para o cientista político e professor da FGV Marco Antonio Teixeira, a polarização no Brasil está ligada a diferenças de valores, e acabou sendo absorvida pelas disputas políticas. “Nos anos anteriores, as eleições traziam projetos políticos diferentes, não valores, do ponto de vista moral. Não se discutia moralidade em termos de religião, de ser a favor de cotas. Em 2018, foi quase uma luta do bem contra o mal. De conservadores e não conservadores”, afirmou. 

Na visão de Calliari, o fato de que o debate político está desestimulado é preocupante para o futuro do País. “Intolerância tem a ver com o voto ‘anti-oposto’. Nesse caso, mantém e reforça a intolerância. (Os eleitores) Não apoiaram uma causa que acreditam, mas sim o anti. Não se reconhece os pontos positivos de outros projetos. Como chegamos aqui, tem uma coisa cultural. Não temos cultura de dialogar ideias. Isso se reflete na família no contexto educacional, na hierarquia das empresas. Uma conjunção de fatores institucionais que desestimula o diálogo. Essa talvez seja a origem. É um futuro incerto, dúbio. É preocupante.” 

Valores morais têm sido apontados entre os principais motivos do acirramento político na sociedade brasileira, por vezes às frente dos embates diretamente políticos ou partidários. Para o cientista político Kleber Carrilho, da Universidade Metodista, isso é um sinal de que falta educação sobre política no País. “Há uma tendência de não sabermos o que é política.”

O corretor de imóveis Paulo Henrique Nolasco, de 49 anos, diz defender valores da igreja católica e não se considera de direita. “Minha luta é pelos valores. Sou cristão católico. Luto pela moral que a igreja defende. Acho que nossos filhos têm de ter a oportunidade de serem criados pela família tradicional. A família brasileira é conservadora. Apoiaria Bolsonaro de novo por falta de opção, mas não sou mais ‘bolsominion’. Você vai amadurecendo, vê quem está cercando as pessoas. O Brasil precisa de um estadista, a gente sabe que o Bolsonaro não é.”

Para a estudante de nutrição Marcella Carvalho, de 22, o menos importante é a política em si. “As pessoas que votam no Bolsonaro partem de princípios completamente opostos aos meus, e isso me desanima de conversar. Não dá certo, não chega a conclusão nenhuma e me leva ao desgaste, porque temos morais e princípios muito diferentes.”

Também identificada com a esquerda, a produtora de vídeos Priscila Miranda, de 50 anos, admite que bloquear pessoas nas mídias sociais é algo controverso até mesmo para ela, que sempre preservou o diálogo e a pluralidade de ideias. Mas afirma ter perdido a disposição. “Eu fiquei intolerante, e isso eu falo abertamente. Não tenho mais paciência.” 

Dentro e fora das redes sociais, ela diz manter apenas amigos de esquerda e anarquistas. Quem manifestar qualquer discurso de extrema direita, imediatamente é deletado. “Não deleto só por partido. É por ideias. Quando falam de matar bandido, de que estupro é causado por roupa da vítima, que gays são anormais.” Ela conta que última pessoa que excluiu do Facebook foi um colega de curso que fez um comentário que ela considerou machista.

O estudante Erick Ferreira, que relatou ter sido hostilizado em sua universidade, conta que passou a ser alvo de provocações depois que Abraham Weintraub foi indicado por Jair Bolsonaro para assumir o Ministério da Educação. “Eu era próximo do professor, depois que ele virou ministro, passei a ouvir provocações. Procuro não comprar discussões, mas me tacharam. Nas eleições foi assim. Eu seguia os dois candidatos do 2.º turno nas redes. Fui acusado de machista e homofóbico por seguir Bolsonaro, e diziam para eu ir para Cuba ou Venezuela por seguir Fernando Haddad (PT).”

O protagonismo das pautas morais gera uma discussão em que argumentos são deixados em segundo plano, de acordo com o pesquisador da Universidade Metodista. “Não estamos estimulados a debater política e, quando isso acontece, o debate vira uma discussão entre tribos que trabalham não com argumentos, mas com ataques ao que é diferente. Vira um ambiente de Fla-Flu”, diz Carrilho.

Para o cientista político, o cenário favorece a simplificação de discursos. “Algumas estruturas políticas estimulam este tipo de enfrentamento a partir de uma técnica de propaganda que existe desde sempre e que foi explorada por regimes totalitários, que é a simplificação de discursos. Indicando um inimigo comum.

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