Eduardo Costa

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Há um coringa em cada esquina

22/11/2019 às 03:42

Divulgação

Um filme está mexendo com os nervos do mundo. É o primeiro com classificação para adultos a faturar mais de um bilhão de dólares, algo 15 vezes maior que seu custo. “O Coringa” é arrebatador.

Mostra a falta que faz uma família – quem é meu pai?

Guarda as rejeições que tivemos;

Ressalta as dúvidas: será que minha mãe é doente ou o rico a fez parecer, criou uma loucura para ela a fim de se safar?

Acumula humilhações, convive com o bullying, assimila abusos;

Engole a seco as traições, armazena afetos que tentou dar, em vão;

O coringa é a síntese diante da frustração que as injustiças sociais e políticas causam;

O coringa é o invisível que quer chamar a atenção, fazer uma graça, mas não tem plateia, porque não temos tempo para gente como ele, cuja vida vale menos que a morte;

O coringa é também um aviso: se não nos cuidarmos, vamos explodir;

Então, vamos caminhar; tomar umas, encontrar amigos, rir de piada ruim, rir dos nossos micos, perdoar o próximo, mas, antes, nos perdoarmos.

Quem de nós não tem um coringa pra chamar de seu, na garganta que engole sapos? Ou na alma, onde estão nossos segredos mais íntimos?

E, quando o nosso coringa despertar – se a gente deixar – não será o cordial das mídias sociais, o feliz faz-de-conta... Poderá revelar-se cruel, fascista, racista, misógino, sexista, homofóbico...

E o pior é que quando o coringa mata os moços ricos da cidade ou o famoso da TV vira herói dos desvalidos, rei do caos; afinal, somos todos palhaços, só esperando um Arthur Flack para tomarmos as ruas de Gotham City, Santiago, Bogotá, La Paz... Ou qualquer outra cidade, e instalarmos a balbúrdia que pode ser chamada rebelião dos vândalos, mas, também, da alegria, da ressurreição dos zumbis... E então, no meio da mais completa desordem, o mais rico dos homens será morto por um palhaço anônimo, na frente do filho, como aviso de que paciência tem limites – indiferença também... Ai pode começar uma nova estória, de um Batman, justiceiro…

Num momento em que Yuval Harari, o israelense autor de Homo Sapiens, visita o Brasil e diz que, num futuro próximo, os ricos vão deixar de explorar os pobres, simplesmente porque não vão precisar mais deles, talvez o Coringa seja o último aviso do Galba Veloso, do Raul Soares ou dos fantasmas dos porões da loucura para Brasília.

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