José Lino Souza Barros

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A solteirona 

21/03/2020 às 01:23
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Ouça o texto de Nelson Rodrigues na voz de José Lino Souza Barros

Quando acabou os anos de colégio, na escola pública, o pai foi taxativo: "Chega. Basta de escola. Você agora vai trabalhar."
O velho era azedo, genioso que Deus me livre, e, além do mais, tinha suas teorias a respeito de tudo. Achava, por exemplo, que a ignorância não é defeito, nem qualidade. Argumentava, então, com o próprio caso: "Eu mal sei assinar o nome. E passo muito bem, obrigado." O filho, sob o estímulo materno, queria continuar os estudos. No fundo, sonhava ser, futuramente, perito contador. Mas o pai deu um murro na mesa:
— Pra cima de mim, não! Que é que há? Vai trabalhar, que eu não estou aqui para sustentar malandros!
A mulher, tímida e cardíaca, dócil à autoridade e aos maus modos do marido, tentou uma objeção: "Mas ele é tão novinho!" Pior a emenda que o soneto. O marido a emudeceu de vez, com uma série de outros argumentos irrespondíveis: "Que idade tem o bestalhão do teu filho?" Resposta: "Dezesseis anos." Ele exultou:
— Pois eu, aos 10, fui expulso de casa, a pontapés! Aos 13, dava em cima de uma viúva. Aos 14, levei uma navalhada. E o negócio é o seguinte: é homem ou não é homem?

Office-boy

De dez a 15 dias nesse debate doméstico, o Juca aparecia, na rua de uniforme. Era office-boy num escritório da cidade. Como fosse ingênuo, amigo das novidades, gostou e envaideceu-se do uniforme que vestia pela primeira vez. Consultou a mãe, que era a sua fã mais frenética:
— Que tal?
Ela foi às últimas:
— Alinhadérrimo!
Era possível que assim fosse, porque as meninas da rua o olhavam nesse dia, com um interesse muito especial e muito doce. O menino, porém era insolente. Puxava o gênio do pai, que não levava desaforos para casa. Um dia, não se sabe por que, o gerente do escritório fez-lhe observações. O garoto respondeu. E foi um Deus nos acuda. Confiando na sua superioridade física, o outro rosnou algo, como "te quebro a cara". Pronto, Juca saltou, desafiando:
— Vem, se você é homem! Te espero lá fora!
Outros funcionários intervieram, arrastaram o gerente, que esbravejava: "Seu sem educação!" Juca não deu nem apanhou, mas foi despedido. Chegou em casa e já sabe: contou tudo, acrescentando detalhes e romanceando. O pai se solidarizou: "Fez muito bem. É assim que eu gosto". E arrematou com o conselho: "Dá-lhe duro, meu filho, dá-lhe duro. E se você encontrar com ele, sapeca uma bem no queixo." Sair do emprego foi uma delícia. Não arranjou outro, nem interessava. Passava os dias no bilhar, vadiando, e assistindo a sinuca. Até que começou a jogar também. Aos 18 anos, era um às, um "astro" do bilhar. Jogava a dinheiro e ganhava quase sempre. Algumas de suas tacadas se tornaram históricas tal a exatidão diabólica.
No fim de certo tempo, comia, vestia e dormia à custa do taco. E quando não estava no bilhar era óbvio: andava com alguma garota. Tinha boa figura e segundo todos os testemunhos: "dava sorte com mulher". Mas só se interessava por garotas da pior qualidade. Era franco: "Não perco meu tempo com menina direita." E viveria eternamente assim se não acontecesse o inesperado. Aos 20 e poucos anos, travou relações com uma figura estranhíssima: o Duarte, ex-empresário de boxe que, naquela época, passava até fome. Mascando um palito de fósforo, Duarte assistiu a toda uma partida do Juca. Quando este acabou, apresentou-se:
— Sou Fulano de Tal. Queria bater um papinho contigo.
Sentaram-se no fundo do café. Pediram uma cerveja e dois copos.
Duarte, bebendo cerveja e lambendo os beiços, ia explicando: "Já fui um figurão, tive dinheiro, mulheres, o diabo. Mas hoje em dia o boxe não dá mais nada e eu estou na última lona." Serviu-se de mais cerveja, piscou o olho para o amigo e continuou:
— Te vendo jogar, ainda agora, eu tive uma ideia genial.
— Mete lá.
E o outro:
— É a seguinte, posso fazer dua independência e a minha. A nossa — compreende? — Bateu na própria testa, acrescentando: — Sou tudo, menos burro. Depende de ti, depende do teu peito. Menino, eu sou um sujeito que conhece a vida. E só te digo uma coisa: você tem uma mina!
— Mina, como?
Veio mais uma garrafa de cerveja. Duarte encheu o copo do rapaz e o próprio. Olhou em tomo e segredou: "Essa mina é — sabe o quê?" — e esbugalhando os olhos: "Você é besta!" Mas já o outro, temeroso de uma interpretação errada, explicou, rápido:
— Não é nada disso que você está pensando. Deus me livre. Digo que, com esse físico, essa estampa, você pode fazer uma devastação medonha. Caso queira, nós dois. Tenho minhas ideias. Vamos tirar o pé da lama. Topa?
Tonto, Juca balbuciou: "Explica esse negócio direitinho. Não estou entendendo muito bem. Eu faria o que, afinal?" Duarte, que estava inspirado pela cerveja, estimulou o novo conhecido: "É fácil, facílimo. Basta que você me obedeça e pronto". Marcaram um encontro para o dia seguinte. Ao se despedirem, Duarte antecipou:
— Vamos explorar seu físico. Por exemplo: eu conheço uma velha, solteirona, cheia da grana que... Amanhã te explico melhor. Bye, bye.
Juca foi para casa, impressionado. A ideia do outro, se bem que inesperada, era persuasiva como diabo. Seus ouvidos estavam ressoantes das palavras de Duarte: "A mulher bonita não vende seus carinhos? O homem bonito pode fazer o mesmo." No quarto, e pela primeira vez, Juca olhou-se no espelho, com uma atenção nova e crítica. Achou-se "bonito". Esfregou as mãos, numa satisfação profunda. Disse, à meia-voz, para si mesmo: "Quem sabe? Quem sabe?" Ria da lembrança do outro, no fundo encantado pela esperteza do ex-empresário: "Boa bola! Boa bola!" No dia seguinte, pela manhã, o Duarte apareceu no seu quarto, animadíssimo. Foi examinar as camisas do rapaz, os ternos, as gravatas. Juca queria mais detalhes: "Então, como é o negócio? Conversaram duas horas a fio. Duarte deu conselhos, informações, traçou um plano de ação. Mas Juca, inexperiente, levantava uma dúvida: "E se a solteirona não quiser?" O outro explodiu:
— Como não há de querer? Ela, um bucho horroroso e você, um bonitão. Moleza, rapaz! Insistia num otimismo desvairado — nem tem graça! Quer apostar comigo, quanto?
Então, começou o assédio. Todas as tardes, os dois apanhavam o ônibus e iam para a casa dela. Nas proximidades, separavam-se. Sozinho, Juca passava e repassava pela casa da Fulana. Diga-se de passagem que ela não saía da janela, esperando não sei o quê. Dois dias depois, ele telefonava, com o Duarte ao lado ditando; dizia: "Eu sou aquele rapaz, assim, assim." Só uma coisa o assombrava: a feiúra da pessoa. Era uma dessas figuras que nem dá para qualificar. Um dos seus olhos era maior do que outro e espantosamente fixo, como se fosse artificial. Com uma contração de estômago, ele quis refugar a Fulana. E o Dermerval teve que gastar os últimos argumentos e mesmo usar de certa energia: "Deixa de ser cretino! É umazinha cheia da grana, tem prédios, avenidas! Podre de rica!" Acabou cedendo. No fim de uma semana, já frequentava a casa da solteirona. A infeliz chamava-se Marta e parecia maravilhada com o pretendente inesperado. Duarte continuava com seus planos: "Vamos deixar essa mulher a pão e laranja! É a nossa independência!" Juca, porém, vivia num verdadeiro inferno. Marta não tinha nem amigos nem parentes, nada, a não ser um primo, que era seu procurador. Assim, ela agarrou-se ao Juca. E como ele, num mal estar tremendo, fosse incapaz de um gesto, de uma carícia e uma palavra mais doce, fez-lhe um dia a pergunta: "Você é tímido com as mulheres, não é?" O pobre diabo, transpirando, num desconforto, teve que admitir que era, sim, tímido, com as mulheres. Então, aconteceu o fantástico; aquela mulher, que jamais amara e jamais fora amada, teve um arroubo de solitária, agarrou-o, deu-lhe um beijo sôfrego e, depois, caindo numa cadeira, explodiu em soluços:
— Nunca ninguém me beijou! Nunca eu beijei ninguém!

Piedade

Ele saiu de lá, sufocado e furioso. Desabafou com o Duarte: "Olha, seu animal: não volto mais! Deus me cegue se eu voltar lá!" Cuspiu, cheio de nojo, lembrando-se do beijo indesejado. E, de fato, durante dois dias não apareceu, apesar dos apelos desesperados do ex-empresário. Coincidiu que, nesse intervalo, o tal primo de Marta, procurador, foi vê-la. Seu objetivo era desmascarar o Juca; disse horrores: "Um palhaço que não tem onde cair morto! Não gosta de você, nem nada! Sabe o que ele quer, hein? O seu dinheiro!" A solteirona ouviu tudo, pálida. Replicou com uma violência de possessa: "Você está pensando o quê? Que manda em mim? Gosto dele e pronto! Tenho dinheiro, graças a Deus! E pago, por que não? Posso pagar, ora bolas!" Por fim, correu com o primo: "Rua! Rua!" Quando ficou só, caiu em soluços. Mas não tinha a menor ilusão! Juca queria o seu dinheiro e nada mais. Passou uma noite em claro, chorando. Pela manhã, tomou banho, perfumou-se e vestiu-se. Meia hora depois invadia o quarto do rapaz. Apavorado, ele não soube o que dizer nem fazer: "Eu te dou todo o meu dinheiro!" — dizia ela — 'Tudo o que quiser, tudo! E quero, apenas, um momento. Ouviu? Um momento!' Estava horrenda, pior do que nunca, no seu desvario. Mas ele viu diante de si aquelas mãos postas e aquele inacreditável olho enorme e fixo. Começou a tremer. Jamais um homem teve tanta pena de uma mulher. Marta estava de joelhos. Fez com que se levantasse: "Não quero dinheiro. Pra que dinheiro?" Abraçou-a, beijou-a. Duas horas depois, antes de sair, ela, numa gratidão histórica, apanhou na bolsa o talão de cheques e encheu um, com sua nítida letra feminina. Juca recebeu o cheque, leu e releu: 150 mil reais! Mas não teve dúvidas. Sem exaltação, metódico, rasgou o cheque, picou em pedacinhos e os atirou longe. Ela, atônita, não compreendia. E o rapaz, afagando-a na cabeça:
— Não quero nada! Fiz isso por amor!
A solteirona partiu, como se fugisse. Por um momento foi a mulher mais feliz do mundo.


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