José Lino Souza Barros

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Casamento feliz

04/07/2020 às 11:18
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Ouça a crônica de Nelson Rodrigues na voz de José Lino Souza Barros 

Quando chegou, a amiga já a esperava. Beijaram-se na face. Clarinha queixou-se, colocando a bolsa em cima de um móvel:
— Tomaste um banho de desaparecimento, hein?
Diga-se, entre parênteses, que roubara do marido a expressão "banho de desaparecimento". A outra riu, explicando: "Tenho andado ocupadíssima. Você nem imagina!" E como Clarinha não acreditasse, Arminda baixou a voz e anunciou, grave e comovida: "Estou apaixonada!" A exclamação veio irreprimível e alegre: "Outra vez!"
— Sim — suspirou — Outra vez e sempre!
— Você é um caso perdido, puxa!
Ergueu a cabeça, em desafio: "Sei que sou um caso perdido. Mas nasci assim, pronto, acabou-se." Era a terceira paixão da Arminda num ano. Confessava seus casos e justificava:
— Nenhuma mulher pode gostar de um mesmo homem por mais de seis meses.
Repetiu esta opinião e com uma tal ênfase que Clarinha reagiu, imediatamente: "Nem brinca!" E argumentou com o próprio caso: "Pois eu, minha filha, sou casada há dez anos e sabe como é: gosto do meu marido da mesma maneira ou, até, mais." A outra suspirou:
— Ilusão, meu anjo, ilusão. Você pensa uma coisa, mas a realidade é outra, muito diferente. Te digo, com pureza de alma: se me obrigassem a viver com um homem sempre, a vida inteira, palavra de honra: eu me jogaria debaixo do primeiro ônibus!

Feliz

Quando a outra saiu, frívola e radiante, superficial e linda, Clarinha não perdeu tempo: bateu na madeira. Graças a Deus, podia dizer, em alto e bom som: "Sou feliz." Nos seus dez anos de experiência matrimonial, vira coisas do arco-da-velha: fim de paixões supostamente imortais; traições masculinas e femininas; abandonos, desesperos. No meio de tantas vidas fracassadas, era uma das raríssimas mulheres felizes. Tinha um marido gentil, amoroso e, segundo todas as presunções, fiel. Ela vivera, ao longo dos dez anos, sem dúvidas, segura de que amava e de que era amada. De vez em quando, dizia à Arminda, que era sua amiga mais íntima:
— Sou ciumenta que Deus te livre. Mas Eduardo é tão bom comigo, tão correto, que eu não encontro o mínimo motivo. Impossível ter ciúmes de um marido assim!
A outra se limitou à exclamação: "Benza-te, Deus!" Tanta felicidade era para desconfiar. E quando alguém, como no caso de Arminda, estranhava tanta sorte, Clarinha adotava o único recurso cabível: batia na madeira. Dez ou 15 minutos depois de ter saído a amiga, toca o telefone. Clarinha pensou que fosse o marido. Apesar dos dez anos de casamento, Eduardo telefonava para a esposa, com uma constância, uma galanteria de namorado. Mas não era o esposo não. Clarinha surpreendeu-se identificando a própria Arminda; e perguntou:
— Que é que há?
Do outro lado da linha, Arminda baixou a voz:
— O caso é o seguinte: eu ia saindo quando vi uma mulher entrando. É sua nova empregada, é?
— Loura?
— Sim.
— É. Por quê?
E Arminda: "pelo seguinte: é uma criatura linda, verdadeiro espetáculo. E acho que você está se arriscando. Despacha essa zinha. Manda embora."
— Ora, Arminda!
A outra insistia:
— Não se põe dentro de casa uma mulher bonita. Afinal de contas, que diabo! Seu marido não é de ferro. Despede, já.

Alemã

Clarinha disse que não, que em absoluto. Todavia, quando desligou o telefone, estava impressionada. Com sua boa-fé de esposa feliz, admitia que todos os maridos do mundo fossem infiéis, menos o seu. Acreditava piamente em Eduardo. Mas a amiga falara com tanta convicção que, pela primeira vez na vida, Clarinha tonteou. Deixou passar uns dez minutos e foi à copa ver a empregada. Da maneira mais disfarçada possível, olhou-a, de alto a baixo. E a sua impressão foi a melhor, isto é, a pior possível. Achou a garota bonita demais. Era alemã e loura, com uns olhos de azul intenso, um corpo de chamar atenção e uma maravilha de pele. Se não estivesse com espírito prevenido, Clarinha teria passado por cima. Mas Arminda fora taxativa: "Despede. Manda embora." Meia hora depois, ela chamava a empregada:
— Resolvi dispensar seus serviços. Aqui tem um mês de salário. Passe bem.
Pronto. Eliminara do ambiente doméstico um possível perigo, uma futura ameaça. Depois do fato consumado, porém, veio o remorso. No quarto, fazendo a pintura dos lábios, pensava, numa autocrítica implacável: — "Que bobagem, meu Deus!" Não se perdoava a si mesma ter ciúmes de uma empregada. "Pareço criança."
De noite, depois do jantar, o marido, abrindo o jornal, fez a pergunta:
— Cadê a alemã?
Perturbada, Clarinha explicou: "Ela me respondeu mal e eu a despedi." Prestou atenção no efeito da notícia. Eduardo bocejava francamente; aceitava o fato com a maior, a mais completa indiferença. E, com isso, cresceu o desconforto de Clarinha. Disse, interiormente: "Ora bolas!" Pela manhã do dia seguinte, Arminda telefona e indaga: "Chutaste a mulher?
Admitiu:
— Chutei. Mas estou arrependida.
— Arrependida por quê? Deixa de ser boba! Foi um grande golpe! Empregada, só bucho, minha filha! Eu conheço a escrita. Não convém facilitar com marido! Eles não merecem confiança nenhuma!

Mastodonte

Era preciso substituir a alemã. Durante dois ou três dias, Clarinha ficou com dúvidas entre várias pretendentes ao emprego bem remunerado. Embora resistindo às sugestões de Arminda, o fato é que despachou as candidatas mais moças e mais jeitosas. Por fim, apareceu uma, gorda, imensa e, conforme classificação textual da própria Clarinha, "horrorosa". Coincidiu que, na ocasião, Arminda estivesse presente. Chamou Clarinha, de lado; soprou: "Escolhe essa. Serve." Clarinha duvidou: "Mas é feia demais." Arminda insistiu:
— Mas claro! Essa, pelo menos, coitada, não vai seduzir teu marido. Topa, anda!
Acabou aceitando a mulher que era viúva, mãe de três filhos e tinha no queixo uma verruga com um vasto cabelo. Com o tempo, Clarinha viria a saber que a nova empregada fazia tratamento de varizes incontáveis e sofria de um desequilíbrio glandular. Antes de sair, Arminda reforçou:
— Pode deixar seu marido em casa com essa infeliz que não vai acontecer nada!

A infeliz

Chamava-se Leonor. Como fosse gorda, viúva, mãe de filhos — Clarinha adquiriu o hábito de chamá-la de "D. Leonor". Diga-se que a pobre senhora, além de ser destituída de qualquer simpatia física, tinha uma saúde deplorável. Suas varizes criavam um problema de circulação. Sentia dormência nos pés, nas pernas, nos braços. Por outro lado, a gordura prejudicava o coração. Qualquer esforço a prostrava. Andava pela casa, gemendo e arrastando os pés. E como se não bastassem os seus males físicos, deixara-se empolgar por uma obsessão inteiramente gratuita: de que morreria de edema pulmonar. Clarinha acabou se aborrecendo: "Que mania!" Mas como ralhar com uma criatura de mais idade e já tão marcada pela vida? O consolo de Clarinha foi telefonar para Arminda:
— A culpa é sua!
— Minha?
— Sim, sua. Você me arranjou um abacaxi tremendo! Essa criatura me dá um trabalhão que só vendo!
A outra, ponderou:
— Dá graças a Deus! Pelo menos, seu marido, em casa, está seguro! Ótimo, ótimo!

A viagem

Assim se passaram dois meses. E Clarinha já não reclamava. Boa de coração, muito afetiva, ela se afeiçoava a bichos, criaturas e, até, móveis. Criou o hábito daquela criada pesadona; aceitou seus numerosos males físicos; interessou-se honestamente pelas suas varizes. E foi mais longe: defendia D. Leonor da intolerância de Eduardo. Este, com efeito, fazia as ironias mais impiedosas com a infeliz. Perguntava: "Onde está a Chica Bóia?" Clarinha era obrigada a lembrar, e não sem razão, que defeito físico não constitui vergonha. Na sua impaciência, Eduardo exagerava:
— Essa gorducha é de morte!
Um dia, Clarinha teve de viajar para a fazenda do pai, que estava passando mal. Quis levar o marido. Mas este não podia ausentar-se do trabalho, escravo de seus negócios. E só então, ao arrumar as malas, ela descobriu a enorme vantagem de ter em casa uma criada horrorosa. Poderia viajar sem susto, certa de que daquele lado não viria nenhum perigo. Antes de partir, no carro, chamou D. Leonor e recomendou: "Toma conta do meu marido, direitinho, hein?" A outra prometeu: "Pode deixar." E Clarinha, apresentando um comentário alegre: "Juízo, hein?" Duas horas depois, estava na fazenda, onde encontrou o pai já refeito, bem-disposto, pronto para outra. Clarinha não teve dúvidas: tranquila quanto à saúde paterna e numa atroz saudade do marido, voltou nessa mesma noite, para casa. Já imaginava a surpresa de Eduardo e previa, para si e para o esposo, uma noite, de lua de mel. Chega em casa, entra sem rumor. Tudo escuro, apenas iluminado o quarto do casal. No meio da escada, pára: ouve uma gargalhada feminina, esganiçada. Parecia uma mulher em cócegas. Corre, então. Abre a porta do quarto e vê a cena: D. Leonor nos braços do marido. Investe contra a outra, mas é segura por Eduardo. Debate-se, esperneia. Insulta D. Leonor. E escuta a voz do marido:
— Leonor fica. Quem vai sair desta casa é você.
Então, Clarinha corre. O barulho desperta os vizinhos que aparecem na janela. Todos vêem Clarinha fugindo, dentro da noite, gritando pela rua.


SONOPLASTIA: RENATO MIRANDA

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