José Lino Souza Barros

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O ladrão

De Nelson Rodrigues

11/07/2020 às 03:50
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DE NELSON RODRIGUES
O LADRÃO

Noberto está arrumando a roupa diante do espelho. Georgina apanha a bolsa em cima da mesa; suspira:
— Meu filho, foi a última vez. Não venho mais.
Vira-se, atônito:
— Que piada é essa?
Novo suspiro:
— Não é piada. Mas eu pensei e descobri que gosto mesmo é do meu marido, amo o meu marido. É melhor acabar!
No seu espanto e na sua dor, Noberto levanta-se e a puxa pelo braço:
— Gosta do seu marido, daquela besta? Um sujeito que bateu em você? Que trai você com tudo que é vagabunda e não respeita nem as empregadas? Responde! Você ama esse cretino?
Começa a chorar:
— Amo! Parece mentira, mas amo!
Noberto perde a cabeça:
- Escuta aqui! Se você ama, apesar do que ele te fez, então você é uma cretina igual a ele, e outra coisa: — Não falo mais contigo e vai pro diabo que te carregue! Cai fora, anda!
Ela saiu de lá escorraçada, enxotada.

A infidelidade

Aquele amor, que ela agora negava, começara seis meses atrás. Havia entre os dois o que se poderia chamar, com ênfase, de abismo da idade. Noberto, com 17 anos, era um garoto, um menino, sem nenhuma experiência amorosa. Ela, casada e madura, 39 anos, com o desgaste, não só do próprio tempo, como das atribuições domésticas. Aquele adolescente, que cursava o colégio, sentiu-se atraído talvez pela sua condição de mulher casada. E ela deixou-se maravilhar pela idade. Dizia mesmo: — "Às vezes, eu penso que você é o filho que eu não tive." Quantas vezes, no apartamento, entre um beijo e outro, pedia-lhe — "Me chama de mamãe." E, além disso, achava que, pecando com ele, tão novo e ainda não corrompido, era menos adúltera. Há um mês que se encontravam no apartamento e, subitamente, ela acabava tudo. Saiu desesperada. Quando chega em casa, o telefone está tocando — era Noberto.
— Meu bem, sou eu. Você me desculpa, mas eu perdi completamente a linha. Olha: — eu te amo mais do que nunca. Perdão, sim?
Doce, mas irredutível, repetiu:
— É inútil. Nunca mais, ouviu? Nunca mais!
Desligou, embora com uma dessas penas mortais. Junto ao telefone, chorava: — "Coitadinho! Coitadinho!"


O marido

Ainda chorava quando o marido chegou. Arranca o paletó e o atira em cima de uma cadeira. Arregaça as mangas, sem desfitá-la. Começa:
— Eu sei de tudo.
Balbucia:
— Não ouvi.
E ele, na sua violência contida:
— Ouviu, sim! Você tem um amante, encontra-se com ele nesse endereço. Olha! Aqui!
Recua, apavorada. Rápido, ele a agarra pelos dois braços:
— Não se incomode que eu não lhe vou dar um tiro nessa cara! Você nem isso merece! Apenas você vai sair daqui, já! — e apontava a porta: — Rua!
Explode em soluços diante do marido. Abraça-se a ele e deixa-se escorregar ao longo do seu corpo:
— Eu te amo! Te amei sempre! Sempre! Você me bate, você me trai, mas não consegui te odiar nunca!
Ele a puxa pelos cabelos. Então, numa curiosidade maligna, quis saber tudo: — "Te viram entrar e sair, mas não viram o cara. Quem é?" E quando soube que era um quase menino, derrubou-a com uma bofetada: — "Tarada! Tarada!" Georgina cai e levanta-se:
— Escuta: — se você me expulsar, eu me mato! Eu me atiro debaixo de um automóvel!
O marido andava de um lado para outro: — "Uma velha!" Vira-se para ela: — "Você precisa se convencer que é um bofe! Um bucho!" Estendeu para ele as duas mãos crispadas: — "Não me humilha!" A criada, que tinha ido à padaria, aparece na porta, esbaforida. Ele berra: — "Desinfeta!" Ela foge. E ele, para a mulher: — "Você gosta do cara? Diz a verdade, sua cachorra!" Gagueja:
— Gosto de ti! Dele, tenho pena! É uma criança!
O marido senta-se. Puxa um cigarro e o acende. Sopra a fumaça, pensando. Por fim, ergue-se:
— Tive uma ideia. Você vai fazer o seguinte, presta atenção: — telefona para o cara e diz que eu tive de partir, às pressas, para São Paulo. Chama o bicho pra vir aqui.
— Aqui?
E o outro:
— Aqui, sim. Perfeitamente, aqui. Vamos telefonar. Ou esse animal não tem telefone?
Junto ao aparelho, e antes de ligar, quis saber: "Mas para quê?" O marido tem um meio riso cruel: — "Eu vou matá-lo como um ladrão, percebe? Faz de conta que ele entrou aqui para roubar. Mato e não me acontecerá nada. Liga, anda!" Obedeceu. A mãe do rapaz atende do outro lado. E, por fatalidade, Noberto estava em casa. Ao reconhecer-lhe a voz, quase chora no telefone: — Oh, querida!" Georgina baixa a voz:
— Mudei de opinião. E olha: — meu marido teve de ir a São Paulo. Quer vir aqui — aqui em casa — À meia-noite, meia-noite e pouco? Eu deixo a porta do lado encostada. Eu te espero.
O rapaz delirava:
— Vou sim. À meia-noite! Um beijo nessa boquinha.
Quando desliga, volta-se para o marido:
— Está vendo como eu te amo? Faço isso por você. Até traindo eu te amava.
Ele trinca os dentes: — "Cínica!"


O inocente

Ficaram esperando. À meia-noite, o marido estava embaixo, na cozinha, armado de revólver. Georgina, crispada, veio colocar-se a seu lado. Finalmente, ouviram rumor do lado de fora. A porta foi empurrada e um vulto entrou. A cena foi muito rápida: — o marido deu, com a coronha do revólver, um golpe só na cabeça do rapaz. Este cai com um débil gemido. O marido comanda:
— Acende a luz!
Georgina obedece. No chão, está Noberto desacordado, com a cabeça ensanguentada. O marido vai apanhar um cano de chumbo e dá à mulher:
— Ainda vive. Acabe de matá-lo com isso. Vamos ser assassinos juntos!
Anda! Dá-lhe! Dá-lhe! Na cara! Quero na cara!
Como uma louca, Georgina foi batendo. O rapaz já estava morto e ela continuava, como se odiasse o cadáver. Por fim, exausto da própria raiva, ele disse:
— Basta! Chega! E, agora, vai pedir socorro, lá fora. Grita bem alto!
Georgina deixa cair o cano de chumbo. Cambaleante, vai abrir a janela.
Esganiça a voz:
— Ladrão! Ladrão!
E toda a rua acordou.


SONOPLASTIA: RICARDO LOURES

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