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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: 'Felicidade, ainda que à tardinha'

Por Mary Arantes, 15/10/2020 às 15:48
atualizado em: 19/10/2020 às 13:25

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Foto: Pixabay
Pixabay
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Cedo ou tarde, sabia que se casaria, era o caso de esperar pelo tal do moço, que passaria de cavalo na porta da casa... Sempre foi um “desejo mais que desejado”, o de se casar. Mas sempre foi também, uma mulher muito ocupada, pra ficar esperando marido na porta da rua. Mas em noites frias, sentia faltava de outro corpo junto ao seu.

Já em noites quentes, o desejo se desnudava, o calor da menopausa mais parecia o borralho do fogão de lenha. O cheio do corpo e do suor, somado ao cheio do “cio”, era a prova de que ainda estava vida. Gumercindo, seu fiel cão de guarda, deitado no tapete, tudo percebia, escutando os suspiros da dama da noite.

Em seu ofício de bordadeira e artesã, fazia bonecos de panos. Colocava pepeca nas meninas e bililiu nos meninos, cabelinhos nos sovacos e na região pubiana. Fazia um boneco com o bolso da camisa florido, que ornava com a saia de flor de outra boneca. Mas quem quisesse desemparelhar ou emparelhar menino “homi” com menino “homi” e menina mulher com menina mulher, que fizesse livremente sua escolha.

Mas o que ela mais gostava mesmo, era fazer noivos e noivas de todos os feitios e qualidades. Com véu, grinalda e fatiota adequada. Alguns usavam mala, com direito a carregar muda de roupa, pro caso de ter que partir.

Sabia que casaria, cedo ou tarde. Mais tarde foi ficando e essa promessa ainda faltava cumprir. Passou dos 40, dos 50 e dos 60. Agora já estava com 71 anos, e enquanto seus bonecos não arrumavam par, ela arrumava a casa e perfumava a vida. 

Das folhas de patchouli colhidas no quintal, depois de secas, fazia mini travesseiros de ervas e os colocava no guarda roupa da casa, na sala, no quarto, nos cantos mais diversos e um especialmente, no canto esquerdo do coração. Estava pronta, toda ela era perfume!

Foi na pandemia que nasceu o amor de Stella e Toinzim, um amor de pândega, de riso, de beijos ávidos de vida. De olhos que espreitam felicidade pelas gretas. Ele com 83 sabia que era tarde, mas se sabia, foi sem saber que se apaixonou.

A princípio ela não queria mexer com namoro, pensava na idade... depois segundo ela o coração foi “molecendo, molecendo” ... Só sei que em menos de 2 meses já faziam juras de amor eterno.

Antes de casar-se no cartório, fizeram o teste da farinha, teste este que Stella inventou, já que antigamente, casavam-se no escuro, sem saber como o outro era. Esse teste consiste em dormir juntos, pra que um sinta o cheiro do outro, pra ver se agrada. Pilaram a farinha, provaram o sabor, ele com 83, ela com 71.

Por ela, casar-se mesmo, de véu e grinalda, não carecia, apesar das bonecas que fazia, dizerem o contrário... já ele, fazia questão, não era homem de amasiar.

Se é tarde agora, que o dia amanheça, que antes do anoitecer, antes mesmo que o sol se ponha, possam viver toda intensidade desse amor, até que a última réstia de vida, esteja acesa!

Para Toizim e Stella, minha prisca flor, 

Com amor,
Mary

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